ENTREVISTA COM DAVID MELONI

David Meloni pratica Iyengar Yoga desde 1996 e começou a estudar no Ramamani Iyengar Memorial Yoga Institute com B. K. S. Iyengar e seus filhos Geeta e Prashant em 2003. Em janeiro de 2018 foi reconhecido com o certificado ‘Iyengar Yoga Sênior  Avançado Nível II’ por Geeta Iyengar, atualmente o nível mais alto no sistema Iyengar Yoga. Nesta entrevista ele fala sobre suas experiências com o grande guru do yoga e sobre como a sua prática evoluiu ao longo do tempo, assim como a sua visão e os seus desejos para o futuro do Iyengar Yoga.

Claudiyengar: Como você conheceu o yoga? Houve alguma razão especial que te motivou a começar a praticar?
David Meloni​: Quando era adolescente eu fazia karatê e um dos meus professores disse que quando as artes marciais começaram na Itália, nos anos de 1970, houve um mestre que começou a praticar yoga e sua capacidade de foco e concentração aumentou. Então eu fiquei curioso. Na verdade, minha mãe fazia yoga com um livro quando eu tinha cinco anos e eu me interessei pelos movimentos, então esse foi de fato o meu primeiro contato com o yoga. Ainda adolescente eu pratiquei yoga e descobri que isso me dava mais estabilidade e flexibilidade no karatê. Procurei mais informações em livros e nessa busca encontrei o livro do Guruji…
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Claudiyengar: …O LIVRO.
David Meloni​: Sim (risos), O LIVRO: ​Luz sobre o yoga. Nele eu encontrei posturas que me fascinaram e as sequências. Então eu pratiquei com o ​Luz sobre o yoga por um ano. Porém logo eu senti que o meu sistema nervoso estava chacoalhando muito, porque se você realmente segue o livro, você começa com 1h30 por dia, mas logo chega a 5 horas e isso era demais para mim naquele momento. Então eu compreendi que precisava encontrar um professor que me orientasse. Em 1994 eu encontrei os vídeos de Patricia Walden porque eles eram anunciados na TV italiana. Junto com esses vídeos veio um pequeno livro com informações sobre onde encontrar Iyengar Yoga na Itália. A associação tinha sido criada 4 anos antes, em 1990. Assim, eu comecei a ir para Florença para praticar e também para fazer o meu treinamento para professores e em 2003 eu fui para Pune pela primeira vez. Naquele momento o Guruji tinha 85 anos e eu estava muito feliz por poder vê-lo praticar. Ele estava em muito boas condições de saúde, inacreditável para alguém naquela idade.
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Claudiyengar: Você se lembra do seu primeiro encontro com B.K.S. Iyengar em Pune?
David Meloni​: Sim, absolutamente! Quando eu entrei no salão de prática pela primeira vez ele estava fazendo ​hanumanasana. Foi fascinante ver essa lenda viva e a apenas alguns passos de mim. A elegância da prática dele me impactou. Sua condição física me fascinou. Foi um momento muito inspirador e, ao mesmo tempo, um pouco intimidador, eu não queria perturbar a prática dele, eu nem ousava respirar. Meu desejo era chegar mais perto, mas ao mesmo tempo eu sentia medo. Naquele ano eu tive sorte porque ele estava dando aulas – o que não acontecia fazia uns dois anos. Em 2003 ele deu uma conferência sobre a conexão entre a prática de asanas, os nadis e os chakras. Aquilo foi muito interessante para mim.
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Claudiyengar: Quando você teve o seu primeiro contato com ele?
David Meloni​: Na verdade, ele me notou logo porque outros professores assistentes e outros estudantes vieram até mim durante a minha primeira estadia em Pune dizendo que o Guruji tinha perguntado sobre mim, “quem é esse rapaz?!”. A minha prática claramente não era refinada naquele tempo, mas eu era tão dedicado e me esforçava tanto, que eu imagino que essa dedicação ao yoga era visível.
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Claudiyengar: Você provavelmente era um dos estudantes mais jovens no Instituto?
David Meloni​: Talvez sim. Eu estava com vinte e pouquinhos e pelo menos os estudantes ocidentais eram todos mais velhos. De qualquer forma, eu estava muito entusiasmado, obviamente, pelo fato de o Guruji ter perguntado por mim, mas nada além disso aconteceu pelos próximos 5 anos. Silêncio. Eu ia todo ano de um a três meses, o que ainda era possível naquele tempo. Em 2009 ele começou a pedir para o professor assistente me ajudar com uma coisa aqui outra ali. Ele começou a me dizer coisas, sem falar diretamente comigo, mas através dos professores assistentes. Por exemplo, nós estávamos lado a lado, mas ele falava para o assistente: “Fala para ele fazer isso desse jeito.” (risos) Nenhuma comunicação direta. Depois dessa fase, ele pedia para o assistente dele me dizer que chegasse mais perto quando ele estivesse praticando no cavalo ou sempre que ele estivesse instruindo a Abhijata, sua neta. Ele me pedia para simplesmente ficar ali, observar e repetir. Foi o que eu fiz. No começo, de vez em quando eu tentava escapar para fazer outra coisa, mas ele sempre me chamava de volta: “Ei, você, eu disse para você ficar aqui e observar.”
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Claudiyengar: Você diria que essa é a forma de aprendizagem específica do Iyengar Yoga: olhar, observar, imitar, repetir, repetir, repetir?
David Meloni​: Sim, bem, eu já conhecia esse tipo de abordagem devido às artes marciais chinesas e japonesas: quase nenhuma comunicação ou explicações verbais, mas estar perto do mestre observando e repetindo os seus movimentos. Também, o jeito estrito e rude eu conhecia por ter estudado as artes marciais orientais. Não há chance de escapar. O mestre não é gentil. Essa é uma noção ocidental de yoga, de que o yoga deve preencher esta necessidade ou aquela necessidade. Não! O mestre precisa ser rude porque ele precisa quebrar o seu ego primeiro. Senão você não se entrega e ele não pode te ensinar nada. Guruji estava fazendo exatamente isso quando começou a se dirigir a mim diretamente. Muitas vezes ele disse: “Você não entende nada. Sua prática é inútil.” Ele estava certo, é claro, porque eu precisava deixar os meus hábitos para trás e o meu apego à minha própria prática também. Não é apenas uma performance. Você deve quebrar todos os condicionamentos e simplesmente confiar no mestre e no que ele está dizendo, horas e horas as mesmas coisas, meses e meses os mesmos princípios. E então, depois de algum tempo, eu comecei a sentir os efeitos e a compreender o significado disso tudo, o que no começo eu não compreendia. Indo a Pune todos os anos e ficando ao lado dele, praticando como ele instruía, eu ia compreendendo mais e mais o que ele queria dizer e o comportamento dele comigo também foi mudando. Houve cada vez mais momentos em que nos falávamos diretamente e ele se tornou quase gentil nos seus direcionamentos e explicações. Como o Prashant disse uma vez: “Você podia aprender muito com o Guruji no salão de práticas, mas ainda mais fora dele.” Assim eu comecei a passar mais tempo na  biblioteca, quando ele estava escrevendo ou editando seus livros e eu tive a oportunidade de presenciá-lo em todos os tipos de situações: pessoas chegando, pedindo conselhos ou sugestões para ele. Esses momentos são como tesouros para mim e o que eu aprendi nessas ocasiões continua a emergir no momento certo, quando necessário.
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Claudiyengar: Como o falecimento do seu professor, do seu Guru, afetou você e a sua prática?
David Meloni​: A morte de B.K.S. Iyengar foi um choque para mim. Eu senti uma perda gigante. Alguns questionamentos como: “E agora, como será? Quem vai me ensinar? Quem vai ver os meus equívocos e me tornar consciente deles?” À medida que os anos vão passando, sempre que eu estou praticando ou ensinando, eu o sinto bem ao meu lado. Por exemplo, quando estou praticando posso ouvir a voz dele atrás de mim: “Ei, o que você está fazendo?!” Da mesma forma eu ouço a voz da Geeta Iyengar! Quando eu estou dando uma aula terapêutica, por exemplo, eu posso ouvir as correções dela. Tudo o que eu vi, estudei e ouvi dela emerge e está presente.
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Claudiyengar: Então você descobriu um tipo de caixa de ferramentas dentro de você, que você adquiriu de B. K. S. Iyengar e da Geeta, que vem à tona toda vez que você está diante de certas situações?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
David Meloni​: Sim, absolutamente!

Claudiyengar: Qual é o seu conselho para a geração mais nova de Iyengar Yoga, que infelizmente não teve a oportunidade de conhecer o Iyengar e sua filha?
David Meloni​: Parampara! Dar continuidade à tradição, à linhagem: de mestre para discípulo o conhecimento é passado adiante para que um dia o estudante se torne mestre. De forma que a tradição não se perde. É também por isso que Pune quer a mentoria. Se uma pessoa é um verdadeiro professor e outra pessoa quer se tornar um, ele ou ela deveria ficar perto do professor. Ver o professor de tempos em tempos não é suficiente, uma, duas vezes por ano, e então: certificação. Não. Os estudantes deveriam praticar perto professor, deveriam prestar assistência, ajudar, observar. Muitas das coisas que os estudantes mais próximos do Guruji aprenderam com ele não poderiam ter sido ensinadas em aulas regulares. Eu sei que essas pessoas, inclusive eu, estivemos em condições riquíssimas.  Quando se está sob as orientações de alguém, você recebe muitas sementes em muitas  situações diferentes e, com o tempo, essas sementes de conhecimento e entendimento crescem.

Claudiyengar: Você é a favor de mentoria, mais do que manter os treinamentos para professores?
David Meloni​: Eu sou absolutamente a favor de os estudantes estarem perto do professor ao invés de apenas encontrá-lo de 4 a 7 vezes por ano em um treinamento para professores, ao longo do ano seguindo outros professores. O maior registro deveria ser o do mentor. Segundo a minha experiência, não é suficiente simplesmente oferecer aulas regulares para aqueles que querem se tornar professores porque, pelo menos na Europa, não há a possibilidade de prestar assistência em aulas terapêuticas diariamente, como é possível em Pune, ou ser ensinado por um professor sênior todos os dias. É por isso que eu agrupo aqueles que querem se tornar professores em um grupo especial a fim de ensinar-lhes detalhes mais refinados e também de aproximá-los para que haja suporte e trocas entre eles. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Claudiyengar: Este tópico também foi um grande ponto de discussão na Celebração do Centenário em Pune no ano passado. O que mais te marcou nessa convenção especial?
David Meloni​: As duas semanas de convenção foram maravilhosas e a morte da Geeta Iyengar um outro choque. Uma enorme perda porque ela era o segundo pilar do instituto. Apesar que, desta vez eu estava melhor preparado devido à experiência da morte do Guruji. Mas, novamente, o que ela deu com tanto coração permanece comigo e tudo o que eu aprendi com ela emerge em diferentes situações da minha prática e ensino. Nada se perdeu. A questão agora é ‘como manter isso’? É um tesouro que nós devemos manter da forma como o recebemos. Não transformando tudo, alterando tudo, tornando o ensinamento mais bacana ou “na moda”, porque tememos que o Iyengar Yoga não esteja mais atualizado. Não. O que está na moda agora não estará no futuro. O que é inútil agora, desaparecerá. Mas o que é útil e significativo e tem qualidade vai permanecer! Há tanta qualidade no Iyengar Yoga que ele vai permanecer e sempre será importante.

Claudiyengar: Eu me lembro da Geeta em dezembro [2018] dizendo que mudanças não são necessariamente ruins ou algo que se deva temer, mas os princípios do Iyengar Yoga não podem ser alterados…
David Meloni​: Sim, houve muitas discussões baseadas no fato de o Guruji ter alterado ambas a sua forma de praticar e de ensinar – mas nós precisamos ter clareza do porque ele mudou: aos 20 anos de idade a pessoa com certeza pratica de forma diferente em relação a quando tem 90? Ao mesmo tempo, cada vez mais estudantes chegavam com problemas de saúde específicos – com certeza ele teve que mudar a forma como ensinava para direcionar os estudantes exatamente no ponto em que eles precisavam da sua orientação. Vistas de fora, essas mudanças podem ter dado a impressão de que Iyengar Yoga é somente terapia e trabalho com acessórios. Mas a questão é ter uma visão geral do que o Iyengar Yoga é, todo o princípio de lidar com as ações, dos refinamentos. Isso é muito trabalho. Eu estudo e pratico dessa forma há 20 anos, observando, aplicando, ajustando, observando novamente. É isso o que te modifica. É isso o que te faz crescer.
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Claudiyengar: Qual é o seu desejo ou a sua esperança para o futuro do Iyengar Yoga?
David Meloni​: É o meu desejo mais profundo que o conhecimento, a criatividade, a genialidade de B. K. S. Iyengar não seja perdida. Os alunos mais próximos a ele deveriam manter a linhagem viva ensinando no mesmo estilo e forma que ele. Deveria ser completamente claro externamente que você é um estudante do mestre e não que está fazendo qualquer coisa ou com o seu próprio estilo e apenas usando o nome dele por prestígio. Não. Foi uma honra, uma grande honra estudar com B.K.S. Iyengar, mas também é um dever. Para mim, pelo menos, é um dever continuar a ensinar nesta linhagem, um dever do qual eu nunca me sentirei cansado.
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Claudiyengar:
Muito obrigada pelo seu tempo e abertura, David, namastê!

Entrevista por Claudia Lama C.
www.claudiyengar.com/
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Tradução: Dafnis Cakau
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Mais informações sobre David Meloni no Brasil
http://davidmeloni.namaskara.com.br
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Mais informações sobre David Meloni em:
https://www.davidiyengaryoga.it/en
https://www.instagram.com/davidmeloniiyengaryoga/
Fotos: David Meloni.

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